Carnitina: é segura?

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Há quem afirme que a carnitina traz grandes benefícios à saúde e ao desempenho, mas um novo estudo parece ligá-la a doenças cardiovasculares. Estou aqui para desvendar a verdade. 

Li recentemente que a carnitina é um suplemento perigoso porque pode causar doenças cardiovasculares. Assim sendo, por que motivo se recomenda que as pessoas a consumam nos seus programas de exercício?

Deixem-me começar por afirmar que a carnitina não é perigosa, é um suplemento bastante seguro e eficaz. As dúvidas recentes geradas à volta da carnitina devem-se a um novo estudo que indicou uma possível relação entre a carnitina e a aterosclerose. Mas antes de eu entrar em pormenores sobre este estudo erróneo, olhemos primeiro de forma mais aprofundada  para a carnitina e para aquilo que ela pode fazer pelo teu corpo.

A transportadora 

A L-carnitina, ou apenas carnitina (o “L” refere-se à configuração da molécula de carnitina que se encontra biologicamente activa) é geralmente conhecida como um aminoácido, mas não é um aminoácido verdadeiro. A carnitina é um composto semelhante aos aminoácidos, produzida no corpo a partir dos aminoácidos lisina e metionina.
O seu nome deriva da palavra grega que significa carne, carnus. Não é coincidência que a carnitina seja tão abundante nas carnes vermelhas e nos produtos lácteos, mas pode também ser encontrada em diversos tipos de frutos secos, grãos e vegetais. O teu corpo produz carnitina naturalmente, e se este tiver uma deficiência crónica na produção de carnitina, debate-se para conseguir converter gordura em energia. Isto pode levar a fraqueza muscular, raquitismo e a um alargamento do fígado, entre vários outros problemas.

Um dos principais papéis que a carnitina desempenha no corpo é o de ajudar com o transporte de gordura até às células mitocôndrias, tais como as células musculares. É nas células mitrocôndrias que  a gordura é queimada para dar origem a energia. É por isso que a carnitina é um ingrediente queimador de gorduras popular. Pesquisas confirmam que a suplementação com creatina aumenta a quantidade de gordura queimada, particularmente durante o exercício. Isto melhora a perda de godura e aumenta a resistência muscular através da disponibilização de glicogénio para o músculo.
Confirma-se também que a creatina melhora a corrente sanguínea através do aumento da produção de óxido nítrico. Isto relaxa os músculos dos vasos sanguíneos, causando a sua dilatação, permitindo uma maior circulação de sangue. Isto pode promover a resistência muscular através de uma melhor entrega dos nutrientes e do oxigénio ao músculos, juntamente com uma ajuda com a recuperação após o exercício.  

Sobre o estudo

Com todos estes benefícios, parece-me que a carnitina é um suplemento benéfico. Por isso, provavelmente ficaste confundido com aquilo que o New York Times e outros jornais começaram de repente a publicar sobre a carnitina e sobre a possibilidade de ela poder causar a morte. Até têm um estudo para comprovar este sensacionalismo! Mas vejamos o estudo com mais atenção.

Foi publicado na revista Nature Medicine por investigadores da Cleveland Clinic. Relataram que os intestinos contêm microbiota que pode converter a carnitina em N-óxido de trimetilamina, um composto orgânico que pode promover a aterosclerose. Reportaram ainda que o consumo de carnitina aumenta os níveis de N-óxido de trimetilamina nos consumidores de carnes vermelhas, mas não nos vegans, devido a uma diferença nos micróbios presentes nos intestinos, entre os omnívoros, vegans ou vegetarianos.

Mas afinal, qual é o problema? Para além das imensas falhas deste estudo, os investigadores basearam muitas das suas conclusões sobre o N-óxido de trimetilamina em estudos realizados em ratos. Por isso, não poder saber verdadeiramente se o N-óxido de trimetilamina realmente causa doenças cardiovasculares em humanos. Outro problema relacionado com este estudo é o facto de o componente humano do estudo ter consistido em apenas 6 pessoas: um vegan e 5 consumidores de carne. Seis pessoas não está nem sequer perto de ser um número suficiente para que se possam retirar quaisquer conclusões.

Para além disso, depois de ler o estudo, fiquei a pensar na saúde destes indivíduos que consomem carne. Practicam exercício regularmente? Fizeram uma alimentação adequada? Estes factores podem ter um impacto dramático na microbiota, nos intestinos do ser humano. Em suma, este estudo é muito fraco, por isso pega no teu shaker, e mistura este estudo com um batido de proteinas e bebe-o.

O estudo de que não ouviste falar

O estudo da Cleveland Clinic não é o único grande estudo sobre carnitina que foi publicado recentemente. Um estudo novo baseado na meta-análise publicado na revista Mayo Clinic Proceedings analisou 13 estudos diferentes sobre os efeitos da carnitina e a sua relação com as doenças cardiovasculares. Os investigadores relataram que a carnitina é na verdade útil para o combate contra as doenças cardiovasculares, não contribuindo para as mesmas. Sim, leste bem.

Mais especificamente, descobriram que a suplementação com carnitina reduz todas as causas de mortalidade em quase 30%,reduz as arritmias cardíacas em cerca de 65% e reduz os sintomas de angina em cerca de 40%. Para além disso, frisaram que a carnitina ajuda a prevenir a aterosclerose, não conduzindo à mesma.

É fácil explicar o motivo pelo qual o estudo da Cleveland Clinic teve um impacto tão grande. A partir do momento em que um jornal proeminente decidiu ir para a frente com os últimos “zum zuns”, dezenas de outros não tiveram qualquer outra hipótese. Eu ficaria feliz por saber que um estudo mais positivo pudesse ter um tratamento do mesmo nível, mas não ponho as minhas mãos no fogo por isso.

Um passo em frente com a Carnitina

Se estás a tomar carnitina, podes ficar descansado e continuar a tomá-la para maior resistência durante os treinos, maior crescimento muscular e maiores ganhos de força, bem como uma melhoria na perda de peso. Baseado no estudo publicado na Mayo Clinic Proceedings, a carnitina pode ainda oferecer um leque de outros benefícios para a saúde que incluem uma melhoria na saúde cardiovascular.

Uma vez que a L-carnitina requer que a insulina seja levada até ao músculo, sugiro que tomes cerca de 2-3 gramas de L-carnitina ou L-carnitina tartarato (Carnipure), quer seja com refeições com elevada quantidade de hidratos de carbono ou com um batido de proteínas. As melhores alturas para a tomar são de manhã com o pequeno almoço e juntamente com as tuas refeições antes e após o treino.

Referências:

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  4. Bacurau, R. F., et al. Does exercise training interfere with the effects of L-carnitine supplementation? Nutrition 19(4):337-41, 2003.
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  11. Stephens, F. B., et al. Carbohydrate ingestion augments L-carnitine retention in humans. J Appl Physiol 102: 1065-1070, 2007.

Stoppani Jim, Is Carnitine Safe, 23de Abril de 2013, tradução e adaptação da versão original.

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